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quarta-feira, 15 de julho de 2009

Triste, muito triste - desconectada

Você conhece quase todas as letras do alfabeto; sabe contar pelo
menos até quatro; está já aprendendo a forma dos números; tem um
vocabulário e clareza muito superiores a sua idade. É, do ponto de vista
intelectual, a criança de dois anos mais notável que eu conheci.
Entrementes, estamos cada vez mais desconectados. Você raramente
aceita minha presença e, de outras vezes, sou eu que não sei mais me
aproximar. Como sua mãe, tenho me sentido incompetente e assustada, como
se eu vivesse correndo atrás de você e sempre estivesse atrasada. Não
sei como atingi-lo, onde encontrá-lo, e estou começando a ter medo até
de te procurar.
Ouço as gravações de quando nossa vida era bem mais simples, de
quando nós éramos cúmplices, e não consigo evitar as lágrimas. Tento
encontrar uma explicação, uma resposta, um caminho, e parece que jamais
consigo atinar com a verdade dos fatos.
Há meses não te ponho para dormir, porque você não permite. Há meses
você parece essencialmente uma criança infeliz e perturbada... Fico
tentando entender aonde foi que falhamos. Demos a você um lar tranqüilo
e estável, sereno e seguro. Você não recebe estímulos à violência,
tampouco vê televisão em excesso. Está cercado de pessoas carinhosas e
amáveis, que te admiram e tudo fazem para te satisfazer, sem,
entretanto, cumular-te de mimos e caprichos. Você tem brinquedos, trata
com homeopatia, tem roupinhas e amiguinhos. Sai de casa cinco dias por
semana e tem a oportunidade de socializar com outras crianças nessas
ocasiões. Seus primos não te agridem, mesmo quando você lhes bate. E,
entretanto, você parece cada vez mais infeliz, perturbado e
atormentado. Tento me aproximar de você, entender o que está
acontecendo, mas, de cada vez, parece existir um muro maior entre nós
dois.
Aonde estamos, Estêvão? Quem somos? Para onde isso vai nos levar?
Sua irmã nasceu há onze dias. Só ela me faz entrever em você o
menininho que foi há pouco tempo. Com ela você é terno e gentil, mas
mesmo ali existe algo da ansiedade apreçada que te caracteriza agora.
Não sei para onde ir, como te encontrar. Então escrevo para
organizar minha tristeza e para dizer inutilmente que te amo; para rogar
aos céus inspiração e coragem e para sentir, ainda que de forma tão
incompleta, alguma cumplicidade contigo.

domingo, 28 de junho de 2009

Tua falta

No final da gravidez, você passou a me "repelir". Não quer a mamãe, vai
embora, mamãe, e daí por diante.
Assim, perdemos o contato antes de dormir, um de nossos principais
momentos de interação. Em seguida, por questões físicas minhas e escolha
sua, afastamo-nos cada vez mais. Agora você raramente fala comigo e
raramente aceita minha presença quando tento aproximação. Eu tento não
chorar muito por causa disso, mas às vezes é difícil.
Deitada do seu lado, eu percebo as mudanças e me sinto de fora.
Enquanto isso, monta-se toda uma estrutura para que eu não precise me
ocupar de você após o nascimento imediato da Mariles. Entendo e permito
tais providências, porque temo não ter condições físicas, ainda, de
cuidar de você, mas emocionalmente eu me ressinto, como se, dessa
forma, pudesse ter ainda mais dificuldade em reconquistar o seu afeto
ou, ao menos, voltar a ser alguém a quem você recorra quando se machuque
ou quando conquiste algum marco com seus brinquedos.
Há sempre tanta coisa em que pensar e com que se preocupar, que
francamente não duvido que isso esteja atrazando o nascimento da
Mariles. Entretanto, renunciar a todos os planos de um nascimento
humanizado significará, para além de todo o mais, ficar mais tempo
incapacitada de me reaproximar de você.